Feito palavras quando vãs

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Cansam-me a repetição,
o pinga-pinga da goteira
que molha a matéria e minh’alma inteiras,
o gélido ar que estampa de verde mofo
os vários cantos da sala

Cansam-me a mesmice de imagens,
umas congeladas outras reinventadas
algumas personagens,
as teclas sempre na mesma posição,
os mesmos botões de ligar e desligar
Como ver o tempo passar enrugando a pele
sem cólera ou vertigem a se manifestar.

Cansa-me o que não me suga
O que me falta, o ar que o cigarro me rouba
A arrumação eximia que destitui a naturalidade
Cansa-me a exatidão das verdades irrefutáveis
que causa morna tontura mental, deixa-me dual
Cansa-me o que é absolutamente perfeito e coerente

Enxertam de veracidade as falácias
quase intrínsecas no linguajar
esbanjando, chega a transbordar
Não fazendo a menor falta
Embora deixando as sobras
Espalhadas e incrustadas por sobre as paredes mal pintadas

É moderno ser diferente
Mas contemporâneo é ser original
seja como for, ser como é
Eu gozo a virtude de ser mortal, um ser animal
Incompleto e real, feito de dor e avessos
individualidade e compaixão
alegrias e endereço da eterna evolução
Composição entre o passado, o momento presente
E o instante a seguir...
Meu ato é o oposto, a antítese
Para evitar a banalidade das palavras
arriscar o próximo passo, soltar as rédeas
Tanto para errar, para acertar
viVER
Hora de calar e acontecer

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Que diferença isso faz...

Será que se espera demais
ou demais chega tarde?
quando as chagas expostas
se espalham, sem meios que as impeçam

Será que o homem não pode um pouco mais?
Tudo que vive sobrevive sem nós
Tudo que somos depende do que vive para existir
enfim... estou sendo prolixa ou exata demais.

OCO semECO

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Hoje me acompanha o vazio das sensações

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