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Eu guardo em mim sensações que nunca expus, não do medo de como estas possam ser interpretadas, mas partindo do pré-suposto que me há um saudável egoísmo em mantê-las fora do alcance de quem não saberia sentí-las. Já soprei algumas que passaram por despercebidas, e poucas outras que me trouxeram olhares trêmulos e inquietantes, com perguntas presas em suas íris. O fato é que me recolho em um ser paralelo que habita em meu âmago e sofre de extremos da minha essência. Sabe quando se tem a intuição de que algo está para vir, mas não sabe o que e nem de onde? É o que sinto quando estou distraída no tempo e o vento me sopra os cabelos nos olhos fazendo coça-los. Faz parecer que ele quer me roubar o olhar nos instantes em que dou pausa ao mundo. Não, e não são superstições, são sensações, sensações... E há um monte delas que atestariam minha suave frontreira com a loucura. Ainda quando pequena tentava desenhá-las. Mas com o tempo, passei a trair os desenhos com a escrita, assim como costumo traí-la com silêncio. O silêncio é o meu amante. Meu, e de minhas sensações. A verdade é que não há tradutor para a alma que não se simboliza. Todo íntimo é tão abstrato e subjetivo, que hoje podemos ser uma pessoa e amanhã outra. As feições nos permitem perceber isso. E não estão nas mudanças físicas naturais da fisionomia, estão no conjunto de gestos, e principalmente naqueles que pulam pela janela, é lá que a alma costuma debruçar-se, a face é sua morada. E quanto mais a vida nos empurra, mais fácil conduzimos esta leitura. É impossível ficar sem pensar em nada, e os meus pensamentos se vangloriam disso. Acho que daí que proliferam-se as sensações. Mas é apenas um achismo, nada de achado. Eu continuo composta e complexa, submissa a minha imensidão neste
lúcido vício de obserdiar-me...
•Dayane Cairo•
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