Soro

Tempo de profundezas impenetráveis,
claustrofóbicas.
De espinhos e veneno

Cura meu sertão com chuva
em corredeiras...

Dor fina

esgarça
rasga
trespassa
feito flecha farpada
essa dor fina
de punhal esquecido
em meu peito adormecido.

Devir

No passo da hora, mataram-me o instante
A vida que havia por dentro, agora sepulcro
Jaz.
Nem escrever eu consigo
Meu universo está feito tronco, distorcido
Tão morta, eu ainda vivo...
A máquina de acordar e dormir, em mim é o que funciona
a mil, não descansa
atônita, nem cansa
Qualquer hora, desperta, acesa feito a lua
vinte quatro horas
do tamanho que cobre o céu destas noites.
Se alimenta da dor, para saber suportá-la
Com olhos cristalizados
de pavor, arregalados
Às vezes, desespero e dor.
Em outras, calmaria.
Sem calor
nem poesia
Olhos molhados
sem rima
Dançam etéreos
sem som
Música me dói, me lembra
me leva a paz
me deixa sem mais...
Choro em amargos goles, me unha por dentro
Encharca de cor viva meu peito
que de vazar, morre.
Vida e morte, juntos
Se aprontando para o fim de uma. Complemento em guerrear
Meus ouvidos te escutam tempestade
Meus olhos vêem sua força, infinito
Minha mente pensa o que eu desisto
Minha alma sente e eu insisto
Meu coração sangra. Anseia vir a ser uma vez
outra vez
um pincel de colorir...

Filho da perseverança, de quem jamais desiste
Em pedaços, prossigo
Agradeço por existir o dia e fazer tudo novo
Em histórias que virão
que farei, faremos
devir...

Esvazia...

São coisas presas, liquidificadas
Momentos
Entre mentiras e tormentos
As verdades
Simplesmente agora
Inexistem.
Sensação eletrizante
Emoção incontida
Carne trêmula
descompasso
pânico
enjôo, rodopios
e finalmente, vômito.
Para o pouco
Muito deveria bastar
Mas, só pra variar
o miserável
resolveu trocar de lugar.
Calamidade
desabriga os pés pequenos
deixa frio o verão...
Oceano irado, vaza de mim
Sem desaguar, vaza poeira
Sujeira
Esvazia
Quero encher-me
Vaza de mim...

Sabatina II

passageiro feito o vento
espalhando sem dó
minhas lágrimas presas.
sintomas dum ligeiro
canto triste que soa...aqui.

Sabatina

Sintomas
cegueira
Paralisia, que tomara
Momentânea
.
.
Canta o rouxinol
Para o vento
Espalhar
Em dó
E penas
Pequenas
Frases
Incompletas
Correntes
na língua
cortante
presa
cheia, talante

Clara-mente-turva
Embaçada
Na solidez
dos vidros
fibrosos
da visão. Fusão
Se embolando
Ao canto que soa
Um furacão
E ao pulso
da intenção
E partes de cheiro
que fala sem voz
Dum ligeiro
Órgão
passageiro...