Criatura bela

Cores e detalhes
Tão de perto os vi,
Não trisquei meus dedos
A textura daqueles tons eu pude sentir, pude mais
Meus olhos tocaram o cheiro de sua natureza.
Uma Arara meus sentidos, todos, viram
Refleti na criação, na perfeição
É uma dádiva existir.

Ser, vivo

Feito de substâncias únicas, insubstituível
Ilimitado , que tange seu resultado
Instantâneo, fracionado
A vida se faz em cada passo
De tempo e espaço, considerados em absoluto
Andando, no ato
O da respiração, do momento respirar!

Confusão da mente,
Sou bicho, luxo. Sou gente, lixo
Caibo no lugar que é só meu no infinito,
De todos. Volátil

Sem razão. Sem pecado
Progredir meu momento
Adiantar meu lado, ao passo,
Ao próximo, inesperado.
Amor, ódio, alegria, dor, vertigem
Tudo que eu fluir, onde eu posso chegar
Do que se pode ser, vivo.

Caminho

Ela evita olhar para não latejar
Pulso que pára ou dispara
Sobram objetos?
Espaço pequeno para dois pensamentos.

Neve de inverno sub-tropical
Febre interna ferve a íris, derrete as idéias
Febre que queima as árvores
Subtrai o oxigênio, deixa as sobras.

Para vestir, para beber, para dormir
Tudo em seu lugar
De ficar, onde está o meu?
Espaço pequeno para dois pensamentos.

Berlim, divisa, linha imaginária e nítida
Homens, semelhantes
Filhos do ventre andam seu destino, aonde chegam?
A depender dos passos que cruzam seu caminho...

A palavra não dita, sua forma pelos olhos escrita
Que ela evita.
A palavra atravessa lugares, alcança-nos a alma
Por dentro dos olhos se faz ler, vês?!

Saudade

Saudade é um pouco como fome
Só passa quando se come a presença
Mas às vezes a saudade é tão profunda
que a presença é pouco:
Quer-se absorver a outra pessoa toda.
Essa vontade de um ser o outro
para uma unificação inteira
é um dos sentimentos mais urgentes
que se tem na vida.

Clarice Lispector

Mundo novo, ou Estranha

Sobra vontade mas ainda falta o tempo
Que não se encontra
Não se questiona o desconhecido
Apresenta-se a ele.
Atitude mental, despudor
O que há por realizar
Remoção ou pode ser nascimento
Chama-se como?
Eu pequeno não sei, saberei!
Quando, repito, eu não sei!
Há de haver...
Encontro com a estranha beleza
Total de viver, êxtase
Tão desejada sapiência, há fé
Sou eu.
Reflexão, a espera do instante reação
Desassossego que faz tremular, quer saltar
Pondera, aguarda sua chance
Imortal, o ser é alma, sempre.
Matéria indefinível, emoção e raciocínio
A mil, a zero
num segundo um século
Instantâneo e fugaz
Extremidades de um intangível, eu.
Sobre mim está a estampa de quem eu ainda não sou
E sou, desde quando abri-me ao conhecimento
Expansão.
Agora estou em construção
Desta nova criatura
Que conheço junto com o próprio desenvolvimento
Meu mundo novo
Crescimento

Os poemas, de Mario Quintana

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti ...